Pacientes com mutação BRCA e diagnóstico de neoplasia inicial da mama, precisam da retirada da mama toda?

Dos diagnósticos de câncer de mama 5%-10% vão apresentar mutação nos genes BRCA1 ou BRCA2, com maior proporção de pacientes mais jovens. Em uma grande análise de pacientes com mutação BRCA, o risco cumulativo de câncer de mama até os 80 anos de idade foi 72% para BRCA1 e 69% para BRCA2, enquanto o risco de câncer de ovário foi de 44% para BRCA1 e 17% para portadores de BRCA2.

Após o diagnóstico, um compromisso com vigilância ao longo da vida é uma decisão necessária e complexa – abrangendo não apenas intervenções oncológicas mas também o planejamento familiar — é inevitável. Diretrizes das sociedades médicas oncológicas defendem nesse cenário da paciente recém diagnosticada, a consideração de mastectomia para a mama afetada juntamente com mastectomia redutora de risco na mama oposta.

Ainda a cirurgia redutora de risco, nessas pacientes mutadas, há muitos questionamento e preocupações sobre recorrências de câncer na mesma mama e alto risco vitalício de diagnóstico na mama oposta. No entanto, a mastectomia bilateral ainda carrega muitos pontos negativos, questões de percepção corpórea e aceitação, impactos na sexualidade de algumas mulheres e medo.

Uma recente revisão de dados publicados por Vallard et al avaliou o resultado da abordagem comparando mastectomia com cirurgia conservadora, nessas pacientes. Os autores observaram que em curto intervalo, a cirurgia conservadora foi equivalente à mastectomia em relação ao controle local e, a longo prazo, sobrevida global e a sobrevida livre de metástase também foi comparável. Apesar de dados de longo prazo mesmo, serem limitados.

A Sociedade Americana de Oncologia (ASCO) recomenda que “o status BRCA da linhagem germinativa” não deve impedir uma paciente com câncer de mama no estádio inicial de realizar cirurgia conservadora, e que também a radioterapia necessária complementar não traria riscos adicionais nesse grupo de pacientes.

Então a recomendação final da ASCO foi que a mastectomia profilática contralateral deve ser oferecida para todas as paiente portadoras da mutação BRCA.

O assunto hoje é sobre aquelas pacientes que não desejam a retirada da mama completa diante de um diagnóstico inicial do câncer de mama no contexto mutação. Essas paciente devem ter acompanhamento rigoroso com ressonância magnética anual alternada com mamografia e a ultrassonografia mamária, permitindo a detecção precoce de novos achados ou recidiva e com maiores chances de cura e sobrevida.

O editoral publicado final de 2022 levanta possibilidades na redução do risco do câncer de mama contralateral nas paciente com mutação. Entre eles estão:

  • Radioterapia bilateral (na mama tratada e na mama oposta). Porém nesse contexto temos dados iniciais apenas dos estudos, mas provavelmente teremos dados futuros mais robustos para essa indicação.

*Terapia endócrina: deve ser lembrado que as portadoras da mutação BRCA com tumores hormonais recebem terapia endócrina de acordo com as diretrizes, mas ainda enfrentam um alto risco de câncer de mama na mama contralateral.

  • Terapia alvo: O estudo OLYMPIA avaliou o benefício do adjuvante olaparib
    para alto risco BRCA, com impacto completar na redução do risco de câncer invasivo na mama oposta.

Mas todas essas alternativas terão muitas limitações e as indicações muito específicas em pacientes já em tratamento e não entrariam como profilaxia direta para todos os casos.

Em conclusão, as mulheres que carregam uma mutação germinativa em BRCA1/2 devem lidar com um alto risco de câncer de mama e ovário. Embora o cirurgia de retirada da mama redutora de risco seja frequentemente defendida, muitas mulheres portadoras temem seus efeitos adversos e buscam alternativas opções preventivas. A tomada de decisão para esse dilema oncológico não é um processo simples, mas sim uma verdadeira oportunidade de alinhar os valores do paciente com objetivos terapêuticos juntamente com a equipe oncológica completa.

Lembrando sempre dos hábitos de vida e mudança do estilo de vida como fator fundamental no processo de vida dessas pacientes e ponto principal na redução efetiva de risco.

Post Colaborativo
Dra Priscila Morosini & Dra Thamyse Dassie
DOI https://doi.org/10.1200/JCO.22.01609

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